27 de Março, 2026 16h03mInternacional por Agência Brasil

Pressão econômica da resistência do Irã força novo recuo dos EUA

O segundo recuo do presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, em menos de uma semana, da ameaça de atacar a indústria de energia do Irã expõe as limitações de Washington para escalar a guerra em meio aos efeitos econômicos provocados pelo fechamento

O segundo recuo do presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, em menos de uma semana, da ameaça de atacar a indústria de energia do Irã expõe as limitações de Washington para escalar a guerra em meio aos efeitos econômicos provocados pelo fechamento do Estreito de Ormuz e pelos ataques à infraestrutura energética das petro-monarquias do Golfo Pérsico.

O segundo recuo de Trump é acompanhado da manutenção do preço do barril de petróleo em torno dos US$ 110 dólares, com as ações de Wall Street nos valores mínimos dos últimos seis meses, além da queda dos mercados de títulos da zona do euro e do Tesouro dos EUA.

“Nesse caso, teremos a possibilidade de o petróleo bater recorde e passar de US$ 150, eventualmente chegar a US$ 200. Isso é muito e destrói inteiramente a popularidade de Trump nos EUA, particularmente entre os independentes, mas mesmo de parte dos afiliados ao partido Republicano”, comentou à Agência Brasil.

O professor Pedro Paulo acrescenta que, quanto mais danos a guerra causar à infraestrutura energética da região, maior será o prejuízo econômico no mundo e nos EUA.

“Provocaria uma queda ainda maior do volume de petróleo que chega ao mercado internacional. Uma coisa é religar [um sistema paralisado], mantida a capacidade produtiva, outra é reparar a capacidade produtiva destruída, cuja restauração levaria muito mais tempo”, disse.

Efeitos catastróficos

O economista Marco Fernandes, membro do Conselho Popular do Brics, pondera que os efeitos econômicos serão “catastróficos” se a guerra se prolongar ou se aumentar a destruição da infraestrutura dos países da região. 

“Há analistas econômicos dizendo que podemos ter um efeito que seria a somatória da Covid com a guerra da Ucrânia nos primeiros meses. Outras avaliam que, se essa guerra se prolonga por alguns meses, pode vir a ser algo comparável à crise de 2008. Não acho que são estimativas irrealistas”, comentou.

Presidente dos EUA Donald Trump 11/3/2026 REUTERS/Kevin Lamarque - REUTERS/Kevin Lamarque/Proibida reprodução

Por outro lado, o também analista geopolítico do Brasil de Fato ponderou que o recuo de Trump pode ser para ganhar tempo para uma invasão por terra do Irã, o que também levaria a um endurecimento das respostas iranianas, aprofundando a crise econômica que Trump busca contornar.

“Se os yemenitas [aliados do Irã] fecham o estreito Bab al-Mandeb [no Mar Vermelho], aí nós vamos ter, de fato, um colapso generalizado do mercado de energia no mundo”, completou Marco Fernandes.

Fertilizantes e Chips

O economista lembra que o gás do Oriente Médio é fundamental para os fertilizantes, usados na produção de alimentos, e para produção de chips e semicondutores e outras peças eletrônicas, em especial, das fábricas de Taiwan. Os semicondutores estão em todos os tipos de aparelhos, como carros e celulares.

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“Isso pode ser gravíssimo. Algo entre 60% a 70% da produção global de chips vem de Taiwan. E a TSMC [Taiwan Semiconductor Manufacturing Company], que é a grande empresa global de produção de chips, não tem estoques de gás hélio por muitos mais dias”, avalia.

Ainda segundo o especialista, os EUA não teriam capacidade industrial de manter uma guerra de longo prazo uma vez que os estoques do sistema antimísseis THAAD, o principal sistema dos EUA, já teriam sido 25% gastos na Guerra dos 12 dias contra o Irã, em junho de 2025.

“Essa guerra também, quanto mais tempo ela continuar, maiores as chances de Israel e dos outros ativos estadunidenses na região ficarem sem nenhuma defesa contra os mísseis iranianos. Então de fato é um cenário, eu diria, que se configura ou se... Se vislumbra uma catástrofe tanto para Estados Unidos quanto para Israel na região”, completa.

Marco acrescenta que, mesmo sendo o maior produtor de petróleo do mundo, as empresas dos EUA operam com o preço do mercado global, sem preocupação de amortecer o valor dos combustíveis na bomba para o público interno.

“Por, justamente, se tratar de um sistema capitalista selvagem, as empresas produtoras de petróleo não vão vender mais barato internamente, elas vão cobrar o preço mundial. Os EUA tendem a sofrer mais aumento do preço dos combustíveis. Isso é péssimo para o Trump eleitoralmente porque isso vai aumentar a inflação no país”, analisou.

Mapa Estreito de Ormuz - Arte/EBC

Risco político

Em novembro, há eleições legislativas no país e Trump corre o risco de perder a pequena maioria que tem no Congresso. O professor da Unicamp Pedro Paulo Zaluth Bastos lembrou que o presidente dos EUA vem perdendo popularidade devido a inflação provocada pelas tarifas que ele impôs às importações do país.

“O Irã sabe que, agora que encontrou um ponto de estrangulamento fundamental para a economia mundial, só vai querer sair da guerra se tiver condições favoráveis. E é relativamente barato fechar o Estreito de Ormuz e cobrar concessões maiores, como já estão fazendo”, comentou.

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